Combates Contra a Extrema-Direita

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Este livro evoca a memória de José Carvalho, o Zé da Messa, como era conhecido entre amigos e camaradas, que foi assassinado por um bando neonazi em outubro de 1989, há trinta anos. Há nessa evocação uma dor que dificilmente se escreve e se diz, que marca quem o conheceu e partilhou com ele tempos de alegrias e tristezas, mas sobretudo os momentos da exaltação democrática, desde os movimentos de soldados em que aprendeu as primeiras letras da política até à persistência e resistência na pesada década...

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Descrição

Este livro evoca a memória de José Carvalho, o Zé da Messa, como era conhecido entre amigos e camaradas, que foi assassinado por um bando neonazi em outubro de 1989, há trinta anos. Há nessa evocação uma dor que dificilmente se escreve e se diz, que marca quem o conheceu e partilhou com ele tempos de alegrias e tristezas, mas sobretudo os momentos da exaltação democrática, desde os movimentos de soldados em que aprendeu as primeiras letras da política até à persistência e resistência na pesada década de oitenta. Sobre essa memória cabem nesta introdução algumas palavras, para que não se perca a referência mais importante, a do contexto militante que definiu a sua vida. O Zé tinha 21 anos quando do 25 de Abril. Foi depois militante dos SUV, Soldados Unidos Vencerão, um movimento de soldados que se desenvolveu na primavera de 1975 e que correspondeu a uma radicalização do contexto político da luta de classes e dos realinhamentos dentro das Forças Armadas a partir do golpe falhado de 11 de março desse ano. Fazia parte da Liga Comunista Internacionalista (LCI), que mais tarde (1978) deu origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR), e nessa qualidade foi um dos animadores dos SUV. Mas a luta dos soldados viria a ser interrompida com o golpe, este vitorioso, de 25 de novembro de 1975, que iniciou o processo de normalização institucional e que, de facto, encerrou a crise pré-revolucionária que se vivia em Portugal. Regressado à vida civil, o Zé voltou à sua profissão de metalúrgico, tendo trabalhado na Messa, uma fábrica de máquinas de escrever na periferia industrial de Lisboa. Foi membro da sua comissão de trabalhadores e um dos impulsionadores da resistência ao fecho da empresa, que foi ocupada pelos trabalhadores e trabalhadoras, num longo processo de luta pelos seus postos de trabalho. Dedicou-se ao mesmo tempo ao seu partido e à militância social e cultural no movimento Tropa Não, que contestava o serviço militar obrigatório. com José Falcão e outros, foi um dos animadores de festivais antimilitaristas no Rock Rendez-Vous, uma das catedrais do rock emergente nos anos oitenta do século passado, e no Palmeiras, na sede do PSR, na Rua da Palma, em Lisboa, onde aconteciam concertos épicos dos Xutos & Pontapés, dos Censurados, dos Clandestinos, de João Aguardela e dos Sitiados, dos Peste & Sida e de outras bandas. Foi à porta do Palmeiras que foi assassinado na noite de 28 de outubro de1989. Quem com ele conviveu sabe da sua vontade de viver intensamente. Escolhemos deixar essa memória pessoal para quem a sentiu e só tratarmos no livro a questão atual mais difícil, a da irrupção dos grupos e movimentos fascistas e racistas, que nesses anos ainda estavam no seu início e que, entretanto, passaram a ser protagonistas da política europeia e mundial. É portanto uma herança que aqui discutimos, a herança de uma ameaça e de um confronto político. É também a forma de homenagem que escolhemos, ao prosseguirmos aqui a reflexão sobre movimentos sociais e sobre o choque com as agendas reacionárias, uma das grandes tarefas militantes dos dias de hoje. O livro inclui para isso três partes. na primeira parte estão as análises políticas e conceptuais de Enzo Traverso, Michael Löwy, Fernando Rosas, Cecília Honório, Jorge Martins e Paulo Pena. Discutem os contextos históricos, as construções doutrinárias e os movimentos de fundo que permitem compreender esta ressurgência da extrema-direita. Como se verá, mesmo quando trabalham a comparação histórica, estes autores resistem à analogia simples. É mesmo a diferença que importa, dado que a história nunca se repete nem se imita. Só a diferença traduz, explicita e explica. Assim, registam a ambiguidade do termo populismo, destrinçam entre os fascismos dos anos vinte do século passado e a extrema-direita de agora e mostram como se afirmam as culturas políticas do autoritarismo e dos ódios. É ainda apresentado um mapa da evolução da extrema-direita em Portugal, que demonstra a sua marginalidade até tempos recentes e ainda o seu fracasso eleitoral e social, mas também registamos que as circunstâncias estão a mudar com a viragem constituída pela eleição de Trump e pela forma como esta impulsionou as novas direitas europeias e a transformação por dentro de partidos tradicionais. É aí que está o perigo. A análise de Paulo Pena sobre como funcionam as máquinas de desinformação ajuda-nos a perceber este perigo. Nesses percursos adivinha-se como os processos gémeos de globalização, financeirização e liberalização criam um modelo de identidade individualizada que promove este desespero solitário, sobre o qual se constroem movimentos diversos, por vezes nacionalistas, outras vezes racistas e religiosos. Na segunda parte descrevem-se alguns casos nacionais, nomeadamente o caso brasileiro (Bolsonaro), o espanhol (Vox) e o italiano (Liga), com textos de Luís Leiria, Miguel Urbán e Giuspeppe Cugnata, que mostram que, apesar de as raízes serem diversas, existem traços comuns, que aliás podem ser ainda mais acentuados por movimentos unificadores, em particular na crise institucional europeia. o caso mais estudado, o da Frente Nacional, revela e evolução de um grupúsculo que vai ocupando o espaço da crise do sistema partidário (o Zé da Messa participou em vários protestos de rua contra a vinda de Jean-Marie Le Pen a Portugal) e do esfarelamento da direita tradicional em França, ao passo que o Vox em Espanha é uma parte do Partido Popular que, no contexto da crise catalã, acentua o alinhamento monárquico e espanholista, integrista católico e economicamente liberal. o caso brasileiro também é analisado em detalhe e, como o italiano, demonstra que a crise institucional e a desagregação dos regimes tradicionais torna possível estes regressos ao passado num novo contexto de comunicação frenética e de organização de ódios sociais. Andrea Peniche analisa outra dimensão desta cultura da extrema-direita, o discurso antifeminista e contra os direitos das mulheres, que se está a enraizar no mainstream da direita. Vista de todos estes ângulos, compreende-se que a extrema-direita já não tem só a forma dos que assassinaram o Zé da Messa, são mais os que, noutro registo mais político e de maior influência eleitoral, hoje estão à frente de partidos de massas, passando a ser agentes políticos determinantes em vários países. Finalmente, a terceira parte inclui dois estudos sobre Portugal, uma análise de Pedro Marta Santos sobre a história dos grupúsculos de extrema-direita e outra de José Falcão sobre as claques de futebol como lugares de recrutamento e de aprendizagem da violência. Sendo duas análises datadas historicamente, ajudam-nos a perceber o tempo em que o Zé da Messa viveu e morreu. Trinta anos depois do assassinato do Zé da Messa, o que era um movimento marginal de rufias repetindo discursos paranoicos tornou-se, em muitos lugares, dos Estados Unidos a alguns grandes países europeus, latino-americanos e asiáticos, um amplo movimento político que disputa o poder ou já o conquistou. Este livro dá conta dessa realidade e discute como lhe fazer frente.

Detalhes

  • ISBN:

    9789899605282

  • Edição:

    11-2019

  • Páginas:

    282

  • Idioma:

    Português

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